Sobre Tolos e Espelhos: Uma Lição de Comédia Corporativa 

image of motley jesters sitting on a corporate hierarchy chart

Tudo começou com um convite no Teams. Um momento tão banal que já deveria ter sido esquecido à hora do almoço, mas que acabou por se transformar numa profunda constatação sobre as «vestes de bobo da corte» que todos nós usamos de vez em quando. 

A situação era bastante comum: um cliente solicitou uma reunião que não se enquadrava directamente no meu âmbito de competências, mas que dizia respeito às áreas de Finanças e Vendas. Tenho um excelente relacionamento com a equipa de Finanças, por isso envolvi-os imediatamente. As Vendas, no entanto, são outra história. Pela minha experiência, esse departamento costuma esconder-se atrás de procedimentos rígidos para evitar o «fardo» de realmente resolver problemas. Para simplificar as coisas, tento resolver questões sem a sua intervenção sempre que possível.  

Mas, desta vez, achei que seria útil. Adicionei um membro da equipa de Vendas ao convite como Opcional (ou «Facultativo», para usar a terminologia sofisticada). A intenção era apenas uma simples informação — uma cortesia para os manter a par, porque o resultado acabaria por afectá-los.  

A resposta foi rápida e fria. Chegou um e-mail, com o seu gestor, o meu gestor e várias outras pessoas em cópia:  

«Por favor, mantenha o nosso gestor em cópia sempre que adicionar alguém da equipa de Vendas às reuniões. Como já sabe, temos procedimentos internos para estas coisas.»  

Isso é meu azar. 

A Primeira Reacção do Ego  

Admito que isso me incomodou. Incomodou-me porque podiam simplesmente ter-me perguntado. Incomodou-me porque envolveram a direcção numa questão sem importância.  

Na minha cabeça, comecei a construir um argumento. Via-os como pessoas que complicam o que é simples apenas para proteger os seus egos. Senti-me superior. Senti-me como se fosse a única pessoa na sala interessada em resultados concretos, em vez de teatro burocrático.  

Num acesso de frustração inspirada, sentei-me para escrever. Queria dissecar o «Tolo». Até inventei uma frase que achei genial: «Lamentáveis são os tolos que não se apercebem da palhaçada que encenam.»  

Fui à procura de munições. Recorri a Robert Greene — o mestre das dinâmicas de poder e da natureza humana. Encontrei exactamente o que queria ouvir:  

“[Os tolos] estão mais interessados na sua carreira e posição do que na verdade. Não se consegue ganhar uma discussão nem fazê-los ver o nosso ponto de vista… eles são simplesmente parte da vida, como pedras ou móveis.” 

Greene, R. (2013). Mastery. Penguin.

Senti-me justificado. Eu era o racional; eles eram a «mobília». Estava pronto para publicar um artigo rijo a mostrar como as pessoas agem de forma precipitada para preservar o seu ego, para no fim atingirem o resultado contrário e fazerem figuras lamentáveis.  

O Espelho  

Mas então, fiz algo perigoso. Continuei a ler.  

Enquanto estava ali sentado, apressado a terminar a minha crítica «intelectual» antes que o meu tempo limitado se esgotasse, percebi uma coisa. Por que estava tão desesperado para escrever isto? Seria para parecer «inteligente»? Ou estaria apenas zangado e à procura de uma forma de me sentir superior?  

Escrever tem uma maneira engraçada de expor as nossas limitações. Muitas vezes estou convencido de que as minhas ideias são de ouro, mas o acto de as colocar no papel obriga-me a encarar o facto de que não sei tanto quanto penso que sei. Muitas vezes estou mais perto do tolo do que gostaria de admitir.  

Eu tinha caído exactamente na armadilha sobre a qual Greene nos adverte. Permiti que uma interação «tola» me incomodasse, me arrastasse para uma batalha mesquinha e esgotasse a minha energia emocional. Ao julgar o «tolo» tão severamente, estava a ignorar a minha própria tolice. Estava a agir puramente com base na emoção, ignorando o panorama geral apenas para satisfazer o meu ego.  

Voltei a Greene e, desta vez, li a parte que inicialmente tinha saltado:  

“Todos nós temos lados tolos, momentos em que perdemos a cabeça e pensamos mais no nosso ego ou em objectivos de curto prazo… Ao ver essa tolice dentro de si, pode então aceitá-la nos outros. Isso permitirá que sorria perante as suas palhaçadas… Tudo faz parte da comédia humana.” 

Greene, R. (2013). Mastery. Penguin.

Em outras palavras, somos todos boelos.

Sem ofensa ao leitor. Por favor, não me crucifique. 

O desfecho 

Afinal, tentar «provar» que alguém é um tolo é, talvez, o empreendimento mais tolo de todos.  

Se estou tão consciente das limitações humanas como afirmo estar, por que razão o comportamento previsível dos outros ainda me surpreende? Por que razão me falta o autocontrolo para simplesmente sorrir e seguir em frente?  

A pesada cruz a carregar não é lidar com «idiotas» — é perceber que fazes parte do mesmo clube. No fim de contas, somos todos idiotas. E assim que percebes isso, a «traje de bobo» que todos os outros vestem já não parece tão lamentável. Parece apenas humano. 

Não tenho mais nada a acrescentar.  

Referências:

Greene, R. (2013). Mastery. Penguin.

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Comments

2 comentários a “Sobre Tolos e Espelhos: Uma Lição de Comédia Corporativa ”

  1. Avatar de ARMA
    ARMA

    Uma leitura leve e que faz refletir… Obrigada pela partilha, por me teres chamado de boela e de me fazer ver, que eu, igualmente comporto-me de forma similar.

    Boa escrita. Boa análise. Bom crescimento. Continue.

    👏🏽

    1. Avatar de Michael Cortez

      Grato pelo comentário e pela honestidade. No fundo, a intenção do texto foi exatamente essa: apontar o dedo para o espelho antes de o apontar para os outros.

      Fico contente por saber que a reflexão ressoou contigo — me motiva a continuar mesmo. <3

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