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Imposto Sobre Competência: Quando a tua excelência se torna o teu maior fardo

Dez Minutos para o Fim do Jogo

Véspera de Natal. Faltavam dez minutos para o fim do expediente.
O que começou como um dia frenético, cheio de reuniões e conversas de corredor, tinha sido reduzido ao som seco dos teclados e ao clique rítmico dos ratos. Era aquele silêncio pesado de quem já só está presente fisicamente, à espera do gongo final.


Para mim, o silêncio era outro. Era o som do pânico.


Tínhamos um relatório crítico para entregar a um dos nossos maiores patrocinadores antes das férias. Eu e o outro estagiário trabalhámos meses para organizar o departamento, mas não tinha sido suficiente. Olhando para os dados à minha frente, a matemática era cruel: o que restava levaria, no mínimo, mais uma semana de trabalho intenso.

«Como é que eu entrego duas semanas de trabalho em dez minutos?»


Enquanto eu entrava num curto-circuito interno, o outro estagiário simplesmente levantou-se. Fechou o computador, arrumou as suas coisas com uma calma invejável e despediu-se. “Bom Natal”.


Fiquei paralisado. Como é que alguém consegue sair com uma bomba destas nas mãos? Naquele momento, soube que, se eu tivesse perguntado como íamos resolver aquilo, a resposta seria um silencioso — ou talvez direto — “isso parece-me um problema teu”.


Não perguntei. Fui ao gabinete do meu gestor, pedi mais tempo e ofereci-me para trabalhar durante o Natal. Ele aceitou e, para minha surpresa, decidiu juntar-se a mim. Passámos três dias a fio a limpar dados. Foi uma experiência estranha, mas gratificante; ele foi o primeiro chefe de quem gostei genuinamente. Entre cafés e fórmulas de Excel, acabámos por criar um sistema de automação que reduziu uma tarefa de horas para dez minutos. Foi uma vitória técnica enorme e selou a nossa ligação.


Mas, no fundo da minha mente, uma pergunta não calava: Onde está o outro estagiário?


Sacudi o pensamento. Convenci-me de que, no final do dia, quem trabalha duro é recompensado. A meritocracia era o meu dogma.

Pouco tempo depois, o estágio terminou. Estávamos a “competir” pela vaga, ou assim eu pensava. No final, fomos os dois contratados. Mesma posição. Mesmo salário. Mesmos benefícios. Tentei aceitar aquilo como um cavalheiro, mas a verdade é que o meu ego sentiu o golpe.


Episódios destes repetiram-se ao longo de toda a minha estadia ali. Eu dava o extra, o meu colega saía às 17h00 em ponto. Quando vinha um aumento, era para o departamento inteiro. Eu consolava-me com a minha “reputação” — o homem diligente, o gajo que resolve tudo. Adorava ser útil, e as pessoas vinham ter comigo para tudo, até para coisas fora do meu âmbito.


Mas, entre uma interação e outra, a ficha finalmente caiu. Comecei a olhar à volta e percebi algo desconcertante: num mar de procedimentos e “job descriptions”, eu era a única pessoa naquela sala que realmente se importava com a competência.

O Choque do “Mundo Real”


Quando ingressei no mundo do trabalho formal, vinha munido de um background académico sólido e da agilidade de uma startup. Estava convencido de que sabia como uma empresa devia operar. Estava pronto para aplicar cada nota que tomei nas aulas.


Em poucas palavras: eu não estava preparado para o mundo corporativo.


Aprendi cedo que, na prática, a “competência” e o “rigor” são muitas vezes apenas palavras bonitas em relatórios de desempenho. No dia a dia, a desorganização reina e as regras do jogo são outras. Percebi que existia uma lacuna profunda entre o profissional que eu queria ser e o “requisito” que a empresa precisava que eu preenchesse.

A Epifania: Ser excecional é uma escolha (perigosa)


Frustrado, comecei a questionar-me: de onde veio esta minha obsessão pela excelência? No seio familiar ou na escola, ninguém me deu um manual sobre ser “super competente”.


Recordo-me de um professor que dizia que não estamos na empresa para alcançar objetivos pessoais, mas para preencher um requisito. Ser excecional é uma escolha pessoal — um “defeito de fabrico” de quem quer sempre mais. O problema é que, quando as empresas notam essa sede, elas não te dão uma medalha; elas dão-te mais trabalho. Elas sugam o máximo do teu potencial porque, como qualquer organismo, a empresa procura a sua própria sobrevivência.

O Imposto Sobre a Competência (High Performer’s Tax)


Foi aqui que bati de frente com o que a gestão chama de “Imposto Sobre a Competência”. Enquanto os meus colegas faziam o básico, eu levava trabalho para casa e automatizava processos de horas em minutos. O meu prémio? Mais responsabilidades.


O golpe final no ego veio na hora da promoção: eu, que criava sistemas e sacrificava a hora de almoço com cursos, recebi exatamente o mesmo aumento que o colega que mal entendia o processo.
A minha excelência tornou-se o meu castigo. Comecei a ter indicadores de burnout e, pior ainda, percebi que o meu esforço era anulado pelos outros. De que servia o meu relatório brilhante se o colega do IT não conseguia ligar o projetor? De que servia o meu método de poupança de combustível se o responsável decidia voltar ao método antigo por pura preguiça de aprender?
Foi neste ponto de exaustão que a minha admiração pela excelência se transformou em algo obscuro. Se o sistema me taxava e os outros me travavam, a minha resposta não foi abrandar — foi ressentir.

A Projeção de Valores e a Armadilha da Toxicidade


Sem perceber, tornei-me o colega tóxico. Como eu tinha valores de rigor e garra, projetei esses mesmos valores em todos ao meu redor. Se um colega não tinha a minha urgência, eu não via apenas uma diferença de estilo; eu via inferioridade.
Caí no erro tático do Falso Consenso: acreditar que todos partilhavam a minha ética de trabalho. Ficava furioso quando, às 17h00 em ponto, os colegas arrumavam as coisas e saíam, enquanto eu ficava até tarde a tentar “salvar o mundo”.


A minha frustração vinha de esperar que eles tivessem a minha garra. Mas a verdade é que a maioria das pessoas está ali apenas para cumprir o job description. Ao ignorar a natureza humana, como diria Robert Greene, eu estava a criar a minha própria prisão emocional. Estava a transformar o meu trabalho numa batalha constante porque os resultados dependiam de pessoas que não jogavam pelas minhas regras.

O Arquiteto em vez do Jogador


A mudança aconteceu quando parei de tentar que os outros fossem como eu e comecei a estudar como eles realmente eram. Robert Greene e as “48 Leis do Poder” ensinaram-me que a minha competência técnica já me tinha dado o que eu precisava: reputação.
O passo seguinte não era trabalhar mais, era mudar de posição.

  • Se o meu colega não entrega o passe, eu não posso simplesmente correr mais rápido; tenho de mudar a tática.
  • Se a minha excelência depende dos outros, a minha função muda de Jogador para Treinador.

Aprendi que a maior competência no mundo corporativo não é a técnica, é a navegação humana.
Comecei a usar a minha influência para estruturar o trabalho dos outros, aceitando a mediocridade simplesmente como uma variável do sistema e aprendendo a obter resultados excelentes através dela, sem sacrificar a minha sanidade no processo.

Conclusão: O Jogo Além do Teclado


No final do dia, a lição mais dura — e a mais libertadora — é que a excelência técnica, sozinha, é uma estrada que muitas vezes não leva a lado nenhum. Conheço profissionais brilhantes, técnicos exímios que dominam as suas ferramentas como ninguém, mas que estão estagnados na mesma posição há anos. Não têm promoções, não têm novos desafios, e a sua influência na organização é nula.


Porquê? Porque falharam em ver que o trabalho não acontece apenas no monitor; ele acontece nos corredores, nas entrelinhas dos e-mails e na rede de alianças que construímos.


Estes “técnicos puros” acabam frustrados, sentindo-se injustiçados enquanto trabalham até à exaustão sem qualquer mobilidade ascendente. Eles esquecem-se de que a empresa é um organismo social. Enquanto eles se focam em fazer, o profissional estratégico foca-se em navegar.
A diferença entre a estagnação e o sucesso meteórico não está em quem trabalha mais horas, mas em quem sabe ler as deixas sociais, entender a cultura da empresa e, acima de tudo, criar alavancagem.


Se queres que a tua competência importe, tens de ser inteligente com o teu esforço. Precisas de aprender a ouvir o que não é dito, a criar conexões genuínas e a transformar a tua reputação numa ferramenta de poder.
Hoje, quando olho para trás, percebo que o meu crescimento não veio de dominar uma nova ferramenta de automação, mas de dominar a arte da navegação humana. A competência abre-te a porta, mas é a tua capacidade estratégica que decide quanto tempo vais ficar na sala — ou se vais sair dela para algo muito melhor.

Referências:

Greene, R. (2000). The 48 laws of power. Penguin.

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Comments

3 comentários a “Imposto Sobre Competência: Quando a tua excelência se torna o teu maior fardo”

  1. Avatar de Roberto César
    Roberto César

    Partilho o sentimento, foi de facto a maior pedra que levei na minha carreira.

    1. Avatar de Michael Cortez

      É uma pedra pesada de carregar, sobretudo quando a recebemos como ‘recompensa’ por um trabalho bem feito.

      Infelizmente, parece ser um rito de passagem para quem procura a excelência: aprender que o esforço sem estratégia tem um custo alto.

      O importante agora é usar essa experiência para navegar com mais sabedoria daqui para a frente.

      Há que se bater o caso.

  2. Avatar de Naoly
    Naoly

    This shit was bussin’, fr, fr!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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