Ao escrever sobre o Imposto Sobre a Competência, percebi que a minha busca pela excelência tinha um efeito colateral perigoso: eu via o ambiente corporativo como um jogo de soma zero, onde a minha agilidade deveria, obrigatoriamente, sobrepor-se à cultura instalada.
Ao reviver esses episódios, lembrei-me de um momento específico em que a minha ânsia por ser o “salvador da pátria” causou exatamente o efeito contrário.
A verdade é que, quando somos novos, confundimos competência com ativismo. Queremos mudar o mundo na segunda-feira de manhã, sem perceber que a empresa não é um software que se reinstala; é um organismo vivo com memória, cultura e, muitas vezes, traumas acumulados.
“A resistência à mudança está profundamente enraizada na forma como o cérebro percebe a incerteza, o risco e as dinâmicas sociais. Fatores psicológicos como a aversão à perda, o viés do status quo, a reatância, a perceção de injustiça e a conformidade social moldam a forma como os colaboradores reagem à mudança. Ao compreender estes mecanismos, as organizações podem ir além das estratégias genéricas de mudança e implementar intervenções que se alinhem com a forma natural como as pessoas pensam e se comportam.”
(Arangath, 2026)
Neste blog, procuro refletir sobre a minha trajetória profissional e os desafios que tive de enfrentar para me tornar um colaborador mais estratégico e menos… “sofredor”.
Antes de tentares implementar a solução “revolucionária” que aprendeste na universidade, precisas de entender que a roda, por mais desgastada que pareça, está a sustentar o movimento.
“Não retire uma cerca antes de saber por que razão foi colocada.”
(Parrish, 2025)
1. O Pânico: Uma Véspera de Tudo ou Nada
Eram três da manhã. O silêncio do meu quarto era interrompido apenas pelo som dos atalhos no teclado para saltar entre tabelas de Excel e o PowerBI. Os meus olhos ardiam. Eu sabia que, dali a poucas horas, teria de enfrentar a pessoa mais poderosa da empresa e uma sala cheia de diretores.
A empresa estava num ponto crítico. O mercado tinha mudado, as pressões externas eram sufocantes e a CEO tinha convocado aquela reunião com um propósito claro: deixar todos conscientes de que o “negócio como sempre” tinha acabado. Precisávamos de novos modus operandi.
O problema? O que eu ia apresentar não tinha passado por nenhum crivo. Decidi, por conta própria, que o sistema de reporte atual era ineficiente e que eu ia “salvar” o departamento com uma solução revolucionária criada em 48 horas. O pânico não era técnico; era o peso do risco. Eu não tinha enviado nada ao meu chefe de antemão. Ele ia ver o meu “brilhantismo” ao mesmo tempo que a CEO, num momento em que a empresa não podia dar-se ao luxo de errar.
2. O Sucesso Amargo
Quando entrei na sala, o ar parecia elétrico. Cadeiras ocupadas, pessoas de pé contra a parede, a CEO à cabeceira com um olhar que exigia evolução. Eu comecei a falar — estratégia, segmentação, implementação — e mostrei os dados de uma forma que ninguém ali tinha visto antes.
Foi um “home run”. Os diretores queriam o modelo. A CEO viu ali o tipo de inovação que estava a pedir. Aos olhos de todos, eu era o prodígio. Mas o meu chefe não estava a sorrir.
No final do dia, ele chamou-me ao gabinete. Eu ia preparado para o elogio, mas recebi um diagnóstico:
“És um procrastinador.”
(O meu chefe, na altura)
Na altura, o meu ego explodiu. Como!? Eu trabalhei 20 horas por dia! Eu entreguei a “inovação” que a CEO exigia!
Mas a ficha só caiu muito mais tarde: ele tinha toda a razão. Ao ignorar o processo para “fazer melhor”, eu tinha agido com uma arrogância técnica perigosa. Se um dado estivesse errado, o meu chefe não teria tido tempo de me proteger. Num ponto crítico da empresa, eu escolhi ser brilhante em vez de ser seguro.
3. A Lição: Não Reinventes a Roda
(Até Saberes Como Ela Gira)
No início, eu era o gajo que tentava reinventar a roda a cada segunda-feira. Entrava nos projetos com o “Síndrome do Salvador”, convencido de que a minha velocidade e a minha visão eram exatamente o que a empresa precisava para se livrar das suas ineficiências.
Mas depois de bater com a cabeça na parede — especialmente após o choque de realidade daquela reunião —, eu mudei. Adaptei-me. Percebi que o ativismo cego não funcionava, por isso parei de tentar recriar tudo do zero. Em vez disso, decidi focar toda a minha energia em aprender exatamente como a roda da empresa girava, com todas as suas imperfeições.
Essa mudança de postura e o foco em entregar resultados consistentes deram-me reputação. Comecei a ser visto como uma autoridade dentro do departamento e, a certa altura, a gestão começou a confiar-me uma responsabilidade importante: fazer o onboarding dos novos colaboradores que entravam para a equipa.
Foi aí que a história ganhou uma nova camada. No começo, quando eu recebia estes recém-chegados — que vinham com a mesma urgência, a mesma frustração com os processos e o mesmo “Síndrome do Salvador” que eu costumava ter —, o meu conselho era um espelho da lição que eu tinha dado a mim próprio:
“Não reinventes a roda.”
(Alguém, nos anos 50)
Eu sentava-me com eles e explicava o básico: “De certeza absoluta que alguém nesta empresa já teve o mesmo problema que estás a tentar resolver agora. O teu trabalho hoje não é criar um método novo; é encontrares essa pessoa, entenderes o método dela e usares o que já funciona.”
E a verdade é que este conselho funcionava. Evitava que eles queimassem pontes logo no início e poupava-lhes imensa frustração.
Mas o tempo continuou a passar. Onboardei mais pessoas, acumulei experiências mais profundas e percebi que esse conselho, embora útil para a sobrevivência inicial, era incompleto. Hoje, a minha abordagem evoluiu e ganhou uma segunda parte obrigatória:
“Não reinventes a roda. Pelo menos até aprenderes como ela gira.”
(Eu, armado em sabichão, 2026)
O que eu tento transmitir aos novos profissionais agora é uma visão muito mais estratégica: a ineficiência corporativa é, na verdade, uma vantagem para quem é esperto. Se um processo é lento e imperfeito, significa que a curva de aprendizagem para o dominares é incrivelmente baixa.
Em vez de te irritares com a falha do sistema, aproveita-te dela. Entra no fluxo, domina o processo atual até seres o melhor nele, entende os bastidores do porquê de ele ser assim e mapeia onde estão os verdadeiros estrangulamentos (bottlenecks).
Só quando tiveres o controlo total da roda é que tens a legitimidade e o conhecimento real para propor melhorias. Se começares a implementar as tuas mudanças assim — de forma gradual, slow and steady, com paciência —, vais perceber que a empresa, enquanto sistema, não vai rejeitar a tua inovação. Pelo contrário: ela vai absorvê-la como uma evolução natural.
“Introduza pequenos ajustes graduais, em vez de mudanças radicais e avassaladoras. Aproveitar a formação de hábitos através da repetição, da consistência e do reforço ajuda a que os novos comportamentos se tornem algo natural.”
(Arangath, 2026)
Referências:
1.Sobre procurar entender algo antes de mudá-lo: Parrish, S. (2025, December 8). Chesterton’s Fence: A lesson in Thinking. Farnam Street. https://fs.blog/chestertons-fence/
2. Sobre o Síndrome de Herói/Salvador no escritório: Insua, N. (2022, November 12). Hero syndrome in the workplace. Expansive. https://expansive.com/hero-syndrome-in-the-workplace/
3. Resistência à mudanças/mudança gradual: Arangath, C., & Arangath, C. (2026, January 23). The psychology of resistance to change. Neurofied. https://neurofied.com/the-psychology-of-resistance-to-change/
4. Mais sobre mudança gradual: The duality of incremental change: Embracing the good and evil – CHART. (2023, August 9). https://www.chart.org/training-tools-and-resources/members-blog.html/2023/08/09/the-duality-of-incremental-change-embracing-the-good-and-evil/


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